sexta-feira, 3 de abril de 2015

Por trás das câmeras, o Grande Irmão!



Pro Pedro Bial.


Palavras fazem barulho. O estalar das letras açoitando signos e o verbo a planejar más intenções contra a nova grafia, sussurrando tônicas ao pé do ouvido de qualquer substantivo distraído. Me pego sonolento e de repente, despertado por uma surpresa. Reconheço que fazem barulho mesmo, as palavras. Disse-me um leitor até então desconhecido por mim, que havia se surpreendido pela minha forma de escrever e que, de alguma maneira sentiu algo diferente após ler um de meus textos. Será? No momento não reagi, nem agradecendo nem fingindo falsa modéstia com frases indiferentes. Mas minha curiosidade falou mais alto. Perguntei então até que ponto ia esse algo diferente e insisti que fosse mais claro sobre o que havia sentido. De acordo com o novo leitor, meu discurso não é moralista nem anárquico, esquerdista ou de direita, nem tampouco excêntrico demais nem menos ainda comum ao extremo. Esse colega – leitor prontamente me comparou com um famoso jornalista, também apresentador de televisão, conhecido por suas frases de efeito e redações calcadas em análises profundas sobre a alma humana. Imediatamente meu ego saiu da caixinha. Como uma bailarina, rodopiava em volta de mim pedindo silenciosamente o acréscimo de elogios. Mas logo me revoltei com ele, o leitor. Como assim não é anárquico? Nem esquerdista? Ora, justo eu que sempre fiz questão de enfatizar minhas verdades e crenças com explicações longas e cansativas! Temi. Temi que por muito tempo não tivesse escrito nada do que dizia ou vice- versa. Já não me agradava tanto a comparação. Afinal, sempre repudiei toda cultura de massa e seu nicho mercadológico. Nada de TV nem BBB. Na primeira oportunidade que tive acessei meu blog e li sem pestanejar. Qualquer texto, qualquer um. Mas li como se não fossem minhas aquelas palavras. Ficava claro então o motivo da surpresa. O texto diante de mim era claro e objetivo. Era produto de uma cultura fria. Com conteúdo, felizmente. Mas fria como a massa e o mercado de ilusões. A cada parágrafo, uma lembrança feito fotografia. Retratos de um menino que sonhava com um mundo mais rico com mais alegria. Por fim, reconheci no reflexo da tela no monitor um cara. Que já não fala tanto sobre política nem se importa em saber de que lado está este ou aquele partido. Que mesmo sem toda a irreverência necessária, arrisca alguns passos no carnaval. Ainda que não decore nomes ou títulos, já passa alguns minutos apreciando o futebol. O menino conquistou riqueza e alegria em seu mundo novo. Esse mundo capitalista, consumista, competitivo, cheio de brothers, sisters, selfies e grifes. É o que me inspira. Afinal, preciso de dinheiro para escrever livros. Alegro-me ao saber que minha literatura ainda desconhecida, tem um irmão. E grande. Por trás das câmeras, minha alça de mira. Bala perdida? Não, é minha poesia. Barulhando estridente. Enquanto aguardo silencioso o próximo paredão.

quinta-feira, 5 de março de 2015

Questionário



Sempre questionei meus hábitos, embora nunca fizesse esforço nenhum para modificá-los. Falava sem parar. Com a cabeça debruçada sobre as mãos e o antebraço, esperava dar o bote. Era como se ficasse à espreita, aguardando o momento certo para me encher de razão e declinar comentários e citações a respeito de tudo e de todos. Nunca em alto brado. Falava para dentro nutrindo meu espírito encabulado. Mas o tempo me ensinou a respirar menos ofegante, me fez pensar o suficiente pra não falar o que penso e nem me desculpar pelas culpas dos outros. Agora tenho medo de parecer inteligente e faço questão de alguns erros. Continuo andando com o bolso cheio de balas, mas já consigo colher flores e cumprimentar cachorros. Prefiro escrever pra não pensar. 

O albergue da juventude




“E eu que me achava um diamante nas mãos de um mendigo, pelo medo de não sê-lo”.
                                                                                                              Raul Seixas



O mundo pendula alforriando a gravidade. Saudade. Do que nunca fui. Meu abismo limita os trópicos entre o que sou e o eu faço. Palavras e ações vertiginosamente embaralhadas. Humano cotidiano. Encontrar a pluralidade nos meios nos obriga a recebê-la, e bem menos notamos a fragilidade de aceitar qualquer coisa como mote ou desafio. Por muito permaneci engajado em causas pessoais por motivo de heroísmo que não raro, subtraíram-me a vida. Minha maldita veia intelectual me permite exercícios constantes de auto-reflexidade, portanto na prática me atenho ao fazer ensaístico. Hoje o que chamam de experiência de vida, não passa de mínimos lembretes da infância. Mas produzo em verso e prosa poesia e anestesia, antes que tal representação rompa o cordão umbilical.

Quem sabe?




Todo futuro é precedido por uma névoa de mistério. Infelizmente foge-me o domínio, na condição de homem in(comum), de vislumbrar o que se fará ou deixar-se há de fazer nos próximos minutos. Não me atrevo a determinar ações calcadas no presente como mola propulsora de um possível ou não, progresso pessoal. Nem menos ficarei pendurado em ponteiros do passado tendo a dor de uma lembrança ruim como ápice de um falso resgate da memória. Porém, agora escrevo o que talvez não fosse dito de antemão nos últimos momentos que temporariamente vivenciamos. Sim, os chamo temporários, pois qualquer coisa que façamos ainda é pouco perto dos nossos primeiros momentos reacionários e dos próximos mais intensos que hão de vir. Hoje, ainda que não pareça me sinto ainda mais mágico e supersticioso. Confesso que eu poderia ter sido o maior motivador das mudanças que causamos juntos, mas posso vislumbrar novos rumos e finalmente escolher dentre as opções possíveis e impossíveis a que mais me agradaria, sem evitar esforços para torná-la verdadeira. Sei que pensar no futuro não nos faz mudar o presente, mas a reação de esperá-lo produz vértices de força que jamais imaginamos. É bom lembrar o que a paixão fez com a gente em questão de segundos, mas pago pra ver o que o Amor fará depois de anos.

Iluminar





Era noite quase madrugada. Já não sei bem, porque seus olhos eram tão brilhantes que desfocaram a realidade. Até esqueci que existem horas, e me lembro bem, foi maravilhosa essa sensação. E logo pensei: esta pessoa chegou me trazendo de presente um pensamento. Que as horas se diluem facilmente diante da surpresa da existência. Você chegou e eu reparei que trazia os olhos iluminados. Foi bom porque fazia tempo que não olhava para meus pés e seguindo a linha dos seus olhos, acabei por perceber que havia um caminho a seguir, e parecia estar ali algum tempo sem que eu notasse. Você me deu de presente uma deliciosa massagem interior, que eu me fiz, porque segui a linha de seus olhos. Assim você entrou em minha vida, olhando iluminado. E acho importante que entrem pessoas iluminadas em nossa vida. Imagine como seria difícil olhar para o chão, a base do nosso corpo, sem esse estímulo precioso de um olhar misterioso, que insinua uma vontade louca de mudar e me fez pensar em como me transformar também. E ainda a delícia de saber que a qualquer momento aquele mistério poderia erguer-se e mostrar em forma de um beijo o que pode guardar oculto... Meus dias nunca mais serão os mesmos depois que passei a conhecer teu mistério luminoso e até agora penso: que será que você tanto olha? A você também deve intrigar o mistério da minha insistência em deixar que permaneça com os olhos me observando por dentro, mesmo que às vezes me desconsidere. Sei que seduzo você porque não me preocupo nem pergunto, mas observo e espero. Não é muito comum não perguntar, não querer saber tudo do outro. Não é mesmo. Mas aprendi que é maravilhoso não perguntar nada. Perguntas e respostas ininterruptas podem ser um poderoso recurso para não nos relacionarmos com ninguém. Falamos, falamos coisas, e na verdade nada fica daquilo que ouvimos. Apenas cumprimos um ritual estranho e racional. Esse canibalismo espiritual de subjugar o outro ou a nós mesmos, usando como garfo e faca as palavras e as idéias. Eu por minha vez aprendi a estar em silêncio na maioria das vezes, porque assim, a palavra, quando pronunciada soa como poema. Ultimamente algo me emociona, então brota uma palavra em meu lábio e grito bem alto. Quase sempre essa palavra espontânea encanta alguém que estava atento, mas se não houver ninguém atento próximo, essa palavra me encantará por dentro e terá valido a pena tê-la pronunciado. Mas quando silencio por não querer ferir a mágica da lembrança de bons momentos que acontecem sem palavras, então me descubro mais rico e mais vivo. A palavra envolve a pele como seda ou como brisa, lembra? Assim concretizou minha poesia e foi cantada em versos, quem diria?! É bom saber que posso falar a mim mesmo sem esperar que sempre tenha alguém que me ouça. Hoje experimento deixar meus olhos irem pousando sobre as coisas e sobre as pessoas como uma borboleta. As borboletas não tem palavras para se comunicar, mas cada uma assim como nós, sai do jardim com algo que não foi pedido. Já não peço nada por mim nem pelas pessoas. Treino diariamente não querer nada delas, é maravilhoso olhar simplesmente e saborear o prazer. Saboreio até as tristezas e as dores, olho para elas dando-lhes o direito de existirem, e com isso digo à vida que existo. Vivo o inesperado dos encontros, e, se possível não os provoco. Procuro acordar sem saber o que vai acontecer durante o dia e muito menos quem irá me chamar ao telefone. Talvez seja muito anárquico não saber a tal ponto, mas se eu puder dividir mais um segredo com você, diria que o que faz de minha vida interessante e mágica é justamente a surpresa de não ter mais domínio nem poder sobre os sentimentos provocados pelos instantes. Porque fabricar encontros, combinar telefonemas e potencializar amizades parece ser o mais perfeito para evitar a solidão. Reconheço que as melhores coisas que me aconteceram foram as que sequer havia imaginado. Da próxima vez que eu cruzar seu caminho e estiver ao alcance dos seus olhos, não direi nada. Vou saborear a surpresa do que virá depois. E se acaso brotar de dentro de você uma palavra autêntica, então diga... Diga apenas porque tem prazer com palavras.

Papo de Anjo



Tanto é tão pouco quanto santo. De tanta fé me causo espanto. Oxalá de grão em grão completa a graça. Prece e cachaça. Na vida afunda. Como todo fiel que comunga.



Então é Natal




Dia desses fui à missa. Depois de tantos anos confinados ao pensamento cartesiano da fé raciocinada, me permiti acessar as mais remotas lembranças. Tal qual Pedro e sua Igreja de pedra. Tudo ali ainda. O advento do homem e do mundo. Paz e Amores reconhecidos na própria natividade. As guirlandas empoeiradas da alma agora sob o pisca-pisca de si mesmo. Minha estrela onde estou. Ouro é pouco perto de tudo. Aconchego-me na manjedoura.

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Vitória, Espírito Santo
Sou parte indivisível porém volátil.Com minhas asas pousei nos portos mais seguros, de onde meus mestres me acenavam dizendo "!Desça, não freie bruscamente, sinta o planar de tua alma!..." e assim cheguei faz trinta anos.
"tão certo quanto o erro de ser barco a motor e insistir em usar os remos..."